Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam”
Deuteronômio 30:19
Caiu no Esquecimento
“Morre rapaz que matou ex-namorada no shopping…”
Esta manchete é mais uma dentre tantas, que ouvimos, vemos ou lemos todos os dias, com os sentidos amortecidos, mecanicamente, quase que do mesmo modo como engolimos nossas refeições, passamos de largo por uma paisagem linda bem ao nosso lado como se tudo fosse feito do concreto que nos cerca e sufoca, ignoramos o som dos pássaros que insistem em cantar melodias que seriam inesquecíveis aos nossos ouvidos e que fingimos quase não ouvir, cheiramos o ar renovado que sobe do solo molhado pela chuva que caiu tão generosa, mas que fazemos questão de dizer resmungando que veio atrapalhar nossos trajetos já de antemão determinados e tão bem confeccionados por nossa pressa neurótica.
Um jovem de 23 anos, cego de ciúmes mata com vários tiros sua ex-namorada de 22… ambos no início de seus caminhos, tão amplos, tão viáveis, cheios de sonhos, aparentemente cheios de vida…e eis que chega o fim, inesperado, inusitado, chocante.
E o que é pior: depois da cobertura ostensiva, agressiva, insensível da mídia, tudo cai no esquecimento, até a próxima tragédia cotidiana.
Eu no meu canto, me pergunto: o que temos feito da vida? No mínimo temos aprendido a subestimá-la, diminui-la, descartá-la. Afinal, a morte no trânsito caótico, nas mãos de bandidos, na acomodação de relacionamentos falidos, na opressão de sistemas econômicos, na complexidade de um mundo em constante transformação, tudo parece mais importante, maior, mais transcendente que aquilo que temos de mais precioso e que nos foi ofertado gratuitamente.
Então me recuso a pensar que as coisas sejam assim. Nos caminhos em processo de terraplenagem do meu coração, busco forças e digo a mim mesmo que preciso reaprender o valor imensurável da vida que me foi dada tão generosamente.
Busco na memória o texto sagrado, tão belo, do rei, poeta, músico e profeta Davi, falando acerca do ser humano, e do valor de sua vida,
”Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? Tu o fizeste um pouco menor do que Deus e o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar sobre as obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste: todos os rebanhos e manadas, e até os animais selvagens, as aves do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre as veredas dos mares…”
Encontro conforto, mesmo depois da avalanche de más notícias, relatos com cheiro de morte, prenúncio de novas tragédias.
A vida está acima de tudo isso, reinando soberana, brilhando reluzente, mais clara que todos os outros astros do firmamento, mais intensa que todos os sóis recém-nascidos das galáxias mais prenhes.
“Quando olhamos as estrelas e deixamos nossa mente vagar pelas muitas galáxias, sentimo-nos tão pequenos e insignificantes que tudo o que fazemos, falamos ou pensamos parece completamente inútil. Mas, se olharmos dentro de nossa alma e deixarmos nossa mente vagar nas galáxias infinitas de nossa vida interior, nos tornaremos tão grandes e importantes que tudo o que fizermos, falarmos ou pensarmos parecerá ser de grande importância.”Henri Nouwen
(Escrito em 2003)
Assuntos: Cotidiano, Mídia



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