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Sala de Estar

Maria do Carmo é caixa de uma agência bancária em São Bernardo há 3 anos.

Todo mundo sabe que ser caixa é uma atividade rotineira que envolve responsabilidade com tempo – afinal quase sempre tem gente esperando na fila, e dinheiro – no fim do dia o caixa tem que “bater”.

Apesar de bem jovem, Maria do Carmo tem dado conta do recado enquanto sonha com dias melhores para sua família e uma oportunidade para subir na empresa.

O Sr. Virgílio, o “seu” Virgílio como é chamado na vizinhança até pelos garotos mais arteiros por conta do sorriso largo e da simpatia contagiante está aposentado já há quase 12 anos e como não tem muito mesmo o que fazer fica sentado em frente ao muro da casa inacabada de alvenaria que construiu com as próprias mãos, fruto do esforço de trinta anos como metalúrgico, acenando para os que passam na rua, sempre distribuindo palavras de estímulo e amizade, “bom dia seu Pedro, tenha um ótimo dia de trabalho!”, “Dona Mércia, o preço do tomate baixou. É só ir à barraca do Zeca”.

Dia de pagamento de aposentados. Seu Virgílio acorda tenso. Não gosta de andar com dinheiro pela rua. Às vezes enfrenta problemas no atendimento, filas no guichê, a porta giratória e o vigia pedindo para que passe por eles de novo…Por outro lado, uma lembrança leve e agradável, a palavra sempre adocicada da moça do caixa, a Maria do Carmo. Faça chuva ou faça sol, a “menina do dinheiro” como ele a chama carinhosamente recebe seus “velhinhos” com muito profissionalismo, é verdade, pois são muitos em um único dia, mas sempre encontra uma brecha para perguntar da família, falar sobre a reportagem principal da TV no domingo à noite, comentar sobre o tempo – assunto importante para quem chega a uma certa idade quando as doenças vão aparecendo e se intensificam nas variações bruscas de temperatura.

Seu Virgílio entra na agência. Ela não parece tão cheia. Os funcionários estão todos concentrados em seus afazeres, mas não se furtam a responder, ainda que com uma rápida olhadela, ao aceno discreto porém firme de suas mãos enrugadas. Maria do Carmo o recebe com um sorriso de avenida, pergunta da consulta médica da semana passada enquanto passa o seu cartão no leitor ótico e confere na tela o valor a ser sacado. Ele diz que ficou triste quando o médico comentou que precisava intensificar a dose de comprimidos para controlar sua pressão. Ela o encara com um olhar confiante e pede para que não se preocupe, que é assim mesmo, que logo os remédios farão efeito e o médico, já na próxima consulta irá diminuir a dose, se Deus quiser.

Dinheiro e cartão no bolso, seu Virgílio agradece Maria do Carmo com os olhos marejados, se despede rapidamente – já há outros na fila – e sai da agência pensando em como ainda há gente boa nesse mundo, gente jovem ainda, capaz de fazer bem o seu trabalho e ainda dar atenção e carinho a gente mais vivida e experiente.

Nove da manhã. Bem ali ao lado da agência, seu Nestor começa a assar seus primeiros churrasquinhos dos muitos que espera vender até o fim do dia. Seu Virgílio não hesita, compra o mais bem passado, faz meia volta, passa pela porta giratória, pelo vigia, fura a fila e oferece seu espetinho a Maria do Carmo em gesto de gratidão e apreço.

Surpresa e lisonjeada, Maria do Carmo se levanta e cumprimenta seu Virgílio com um beijo no rosto e um abraço apertado, para espanto de muitos na fila.

Todos voltam à sua rotina até o próximo dia de pagamentos, até a próxima oportunidade de conexão entre mundo corporativo e gestos humanos transformadores, entre números e emoções, entre estatísticas e afeto que fazem a combinação perfeita entre aquele que serve e ao mesmo tempo é servido.


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2 Comentários

  1. Sergio Prates Lima comentou em 06/04/2007 | Link Permanente

    Nos anos 80 fui caixa de banco e por um bom tempo efetuei o pagamento dos aposentados e pensionistas. Lendo este texto me lembrei dos contatos breves que tinha com tantas pessoas, na sua maioria humildedse sofridas, simpáticas e carinhosas. Embora nunca tenha ganhado um churrasquinho, inúmeras vezes ganhei balas, doces, perfumes, canetas,lenços,que, embora de pequeno valor monetário, tinham grande valor estimativo.De fato, o mundo seria melhor se mais pessoas agissem como a caixa do texto, sensibilidade é o que falta hoje, com tanta correria e falta de tempo.

  2. Augusto Guedes comentou em 12/05/2007 | Link Permanente

    Nos anos 80/90 também fui bancário, não da “bateria de caixas” mas da gerência, onde também tive muito contato com aposentados. Lendo os textos do Jorge (também ex-bancário) e do Sérgio, pude lembrar daquele tempo e daquelas pessoas, na maioria viúvas, que demonstravam a sua gratidão pelos pequenos favores, na realidade grandes deveres, com seus brindes de pequenos valores, na realidade grandes presentes. Em Recife, da professora aposentada pelo município do Rio a quem emprestava dinheiro para voltar para casa por não ter sido feito o seu crédito na data prevista, uns chocolates; em Fortaleza, da Dona Naíla, moradora de Itapipoca, interior do Ceará, a quem autorizava que o seu “benefício” fosse pago sem a sua presença por ser deficiente física, calcinhas de renda feitas à mão por ela mesma para as minhas três filhas ainda crianças. De fato, pequenos brindes que se tornaram grandes presentes e inesquecíveis mesmo com o passar de mais de vinte anos. O resultado é que em viagem ao interior do estado passei pra visitar a D. Naíla, pois tais atitudes despertam em qualquer um o desejo de se estar perto.

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