No primeiro compacto de VPC – Vencedores por Cristo I, além da canção Mais que vencedores (que deu nome à organização), destaca-se a gravação de “Deus tem o mundo em suas mãos”, uma antiga canção gospel no sentido original da palavra, ou seja, uma música ao estilo que teve origem no canto dos escravos norte-americanos.
Os primórdios – as canções e os momentos
O acompanhamento instrumental era composto principalmente por órgão, violão e contra-balde, uma imitação criativa do que seria um contrabaixo, composta por um balde de alumínio com a face voltada para o chão e um cabo de vassouras afixado no centro de sua circunferência, com um barbante na ponta do cabo, que, ao ser pressionado e de acordo com determinada inclinação, produzia as notas desejadas.
No segundo compacto, Vencedores por Cristo II, a canção Satisfação, composta por Ira R. Stanphill (1914-1994), músico norte-americano que se notabilizou por acompanhar pregadores dos movimentos avivalistas (Conhece-se como Movimentos Avivalistas os movimentos de avivamento surgidos na Inglaterra e Estados Unidos a partir do século XVIII) de meados do século XX, popularizou-se nas reuniões de jovens das comunidades evangélicas e nos acampamentos da época:
Satisfação é ter a Cristo
Não há melhor prazer já visto
Eu sou de Jesus e agora sinto
Satisfação sem fimSim paz real,
Sim gozo na aflição
Achei o segredo
É Cristo no coração!
No terceiro compacto, Vencedores por Cristo III, compõe o repertório, entre outras, a canção Não meu querer, de Harry Bollback, fundador do ministério Word of Life (Palavra da Vida), estabelecido no Brasil na década de 1960 e conhecido até hoje por sua rigidez doutrinária e nos usos e costumes. Jaime, no início de sua estada no Brasil, foi professor de teologia e música no Seminário Bíblico Palavra da Vida.
No quarto compacto, Vencedores por Cristo IV, entre algumas canções tradicionais de autor desconhecido, destacam-se composições de John W. Peterson e Don Wyrtzen, ambos compositores de renome no cenário da música sacra norte-americana entre as décadas de 1950 e 1960, o que concedia ao grupo um status de modernidade e atualidade, mas que também gerava críticas vindas dos círculos conservadores da época, que eram maioria no Brasil.
O quinto compacto, Vencedores por Cristo V, inclui duas canções de Otis Skillings, compositor e maestro norte-americano, famoso por suas cantatas no início dos anos 1970.
Fale do Amor
Em Fale do Amor, primeiro LP gravado em 1971, a música que dá título ao disco foi composta por Ralph Carmichael, maestro e compositor norte-americano cujas canções seriam, nos anos seguintes, marca registrada do trabalho de Vencedores. Dentre elas, destaca-se Nas Estrelas:
Nas estrelas vejo a sua mão
E no vento ouço a sua voz
Deus domina sobre terra e mar
O que ele é pra mim?Eu sei o sentido do natal
Pois na história tem o seu lugar
Cristo veio para nos salvar
O que ele é pra mim?Até que um dia seu amor senti
Sua imensa graça recebi
Descobri então que Deus não vive longe lá no céu
Sem se importar comigoMas agora ao meu lado está
Cada dia sinto o seu cuidar
Ajudando-me a caminhar
Tudo ele é pra mim
Regravada no LP Se eu fosse contar, de 1973, Nas Estrelas foi uma das canções mais difundidas de Vencedores nesta primeira fase, anterior aos compositores nacionais. Tornou-se presença quase que obrigatória nos hinários da maioria das igrejas no país.
Novos Caminhos
O LP seguinte, Novos Caminhos, além da canção de Ralph Carmichael que dá título ao disco, entre outras deste compositor, traz uma inovação: uma canção de um compositor nacional, Sérgio Ricardo Leoto. Além do fato de ser Leoto um compositor brasileiro incluído neste repertório, sua história possui pelo menos um dado relevante. Ele é sobrinho da cantora Marlene, famosa intérprete da música popular brasileira, coroada rainha do rádio em 1949.
Nascida no ano de 1924 como Vitória De Martino Bonnaiutti, em São Paulo, no bairro da Bela Vista, Marlene começou a carreira aos 13 anos no programa Hora do Estudante, na Rádio Bandeirantes. Aos 16 anos, estreou como profissional na Rádio Tupi, onde adotou o nome artístico de Marlene, influenciada pela fama da atriz Marlene Dietrich. Pouco tempo depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi trabalhar no Cassino da Urca, contratada pela Rádio Mayrink Veiga e em seguida pela Rádio Globo. O sucesso mesmo só veio com a sua ida para a Rádio Nacional, em 1948.
Nos anos que se seguiram, além da famosa rivalidade com a cantora Emilinha Borba, Marlene construiu uma sólida carreira, servindo como referência para outros grandes nomes da MPB, entre eles, o de Elis Regina.
Sérgio, de tradição batista, foi por certo influenciado musicalmente pela tia ilustre, vindo ele mesmo a ser uma influência estética no trabalho de Vencedores e tendo participado anos depois, entre outros, do De Vento em Popa como intérprete, e do Tanto Amor (álbum lançado em 1980), também como compositor.
Se eu Fosse Contar
Em 1973 a 12ª equipe de Vencedores lança o disco Se eu fosse contar. Além de Dimas Pezzato (que já havia participado da terceira equipe), violonista e baixista que viria também a tomar parte na gravação do De Vento em Popa, surge um outro nome importante que comporia o grupo responsável pela concepção e pela produção do De Vento em Popa. Trata-se de Guilherme Kerr Neto, que teve sua primeira participação em Vencedores na nona equipe, em 1972.
Nascido no interior do estado de São Paulo, de família presbiteriana e após uma adolescência conturbada, Guilherme reconsagra-se à fé cristã em um acampamento de jovens e, em pouco tempo, por conta de suas habilidades musicais, literárias e lingüísticas, passa a desempenhar um papel chave no processo de aproximação do trabalho de Vencedores com a cultura brasileira.
Se eu fosse contar representa mais um degrau no que poderia ser definido como um processo de abertura de VPC às influências da música brasileira da época. Ele inclui em seu repertório duas canções de autores nacionais: Aleluia, de Martha Kerr, e uma marcha-rancho escrita por Wolodymir Boruszewski (Wolodymir Boruszewski, engenheiro aeronáutico (ITA-74), mestre e doutor pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e coordenador do curso de Matemática e Física da Universidade Taubaté, é, além disso, compositor de mais de uma centena de canções, conhecidas desde os anos 70. Sua discografia inclui “O que a Lua não pôde, não pode, nem poderá”, “Cristal” e “Espiritualmente”), ou simplesmente Wolô, jovem oriundo da Aliança Bíblica Universitária (ABU), cujas composições refletiam um trabalho voltado para a contextualização da mensagem cristã através da arte. Algo mais é um exemplo dessa abertura:
Antes mesmo que eu fosse alguém
Tu me amas-te e me disseste “vem”
Mesmo sendo tão rebelde e vão
Tu me amaste e me estendeste a mãoJá me deste tanto amor e paz
Que eu só te peço uma coisinha a mais
Pra que eu possa cumprir a minha parte
Ensina-me Senhor a amar-te
Deixa de Brincadeira
Em 1974 a 16ª equipe gravou um compacto duplo, o Deixa de brincadeira. A canção que dá título ao disco foi escrita por Aristeu Pires Jr. (Aristeu Pires Jr., baiano com influências goianas, engenheiro, é empresário no ramo mobiliário em Gramado/RS. Sua discografia inclui “Entrosando o Time”, produzido por Atletas de Cristo), compositor, violonista e intérprete que anos depois viria a participar da gravação do De Vento em Popa. Embora não tivesse sido membro de uma equipe até então (o que só viria a ocorrer em janeiro de 1977, na 23a equipe), a inclusão desta canção de Aristeu já era fruto das muitas andanças de Vencedores pelo país, quando o grupo passou a ter contato com jovens compositores, instrumentistas e intérpretes de outras regiões. Seja a Paz, adaptação de Guilherme Kerr e Sérgio Leoto do texto bíblico da Carta do Apóstolo São Paulo aos Colossenses (3:15-16) e Deixa de Brincadeira são os primeiros sambas gravados por VPC.
Aristeu, de origem presbiteriana, seria, dentre todos os que participaram do disco, o mais ousado dos compositores e intérpretes. Aristeu é o autor e compositor da canção que daria título ao disco.
Foi fortemente influenciado pela música brasileira politicamente engajada da época e particularmente pela obra de Chico Buarque. Além da canção “De Vento em Popa”, seria também o autor de Salmo 139, A Roseira e Canção para Pedro.
Além da música de Aristeu, a 16a equipe introduz no cenário musical de Vencedores dois jovens talentos que viriam a contribuir de maneira significativa para o De Vento em Popa: Gerson Ortega, pianista e arranjador, e Nelson Bomilcar, intérprete e multi-instrumentista.
Louvor
No ano de 1975, a 17ª equipe viajou o ano inteiro, ininterruptamente, por todas as regiões do país. Esta experiência produziu um impacto permanente em todos os que dela participaram.
Por certo o contato com a realidade do Brasil, com a variedade e diversidade de expressões da fé cristã nas muitas comunidades visitadas e, principalmente, o contato com as pessoas, em particular jovens músicos, intérpretes e compositores, pavimentou o caminho para uma produção que contemplasse o talento dos compositores e intérpretes nacionais.
A equipe gravou um disco intitulado Louvor. Nas muitas faixas internacionais, no entanto, nota-se uma mudança. As canções Louva a Deus, Buscai primeiro, Pai eu te adoro, Pai de amor e Faz-me chegar, são todas versões de um trabalho recém-iniciado nos Estados Unidos pela Maranatha Music!, um selo musical apoiado pela Igreja Calvary Chapel, da Califórnia, que foi fruto de um movimento religioso denominado Jesus Movement.
O Movimento Jesus
No final da década de 1960 hippies convertidos ao cristianismo não encontraram espaço nas igrejas tradicionais nos Estados Unidos. Passaram então a criar pequenas comunidades, preservando alguns dos valores da cultura hippie, entre eles a música, que passou a estar mais sintonizada esteticamente com a música veiculada na mídia da época. Nesse aspecto, há um paralelo entre o trabalho musical de Vencedores e a proposta do Jesus Movement: em ambos há uma aproximação estética da música com a cultura na qual estão inseridos.
Além das já mencionadas canções, há também Consagração (novamente de Martha Kerr), inspirada no texto da Primeira Carta do Apóstolo São Paulo a Timóteo (4.12):
Seja o meu canto
Para sempre só pra te louvar
Seja tão somente, eternamente
Pra te adorar
Seja o recado
Que tu tens hoje aqui pra dar
Mas possa eu trazer na mente
Que tu és quem o dáSeja minha vida
O padrão daquilo que eu falar
No procedimento
O exemplo aos fiéis levar
Na pureza grande
E também na fé e no amor
Mas possa eu lembrar-me sempre
Que dependo de ti Senhor
Guilherme Kerr participa com duas canções, uma adaptação do Salmo 108 e Mente e Coração:
Ah, como é bom poder
Aos pés da cruz depositar
Este meu fardo pesado e árduo
De carregar
E não ter que andar ansioso de nada senãoA Deus tudo levar em grata e súplice oração
E a paz de Deus então
Mente e coração guardará
Em Cristo JesusE não ter que andar ansioso de nada senão
Sobre ele lançar cada problema, cada aflição
E a paz de Deus então
Mente e coração guardará
Em cristo JesusAh, como é bom poder… Como é bom saber!
Em janeiro de 1977 a 23ª equipe, além da presença de Guilherme Kerr e de Gerson Ortega, conta também com dois irmãos, Ederly e Abílio Chagas, de Bauru, presbiterianos de origem e que viriam, meses depois, a contribuir com suas vozes e composições para o trabalho do De Vento em Popa.
Entretanto, mesmo com as presenças destas tantas pessoas, predominam no disco as figuras de Aristeu e de Sérgio Pimenta, que participa pela primeira vez de Vencedores nesta equipe. Nascido em 1954 no Rio de Janeiro, Pimenta foi o grande ícone da música que Vencedores produziu em seus quase 40 anos de existência. Falecido aos 32 anos em 1987, escreveu mais de 300 composições em pouco mais de uma década, canções que em sua maioria utilizavam-se de ritmos nacionais. Quico Fagundes, renomado violonista radicado em Brasília e amigo pessoal de Pimenta descreve detalhes de sua convivência:
COM JEITO DE PIMENTA E COM SABOR DE DEUS, por Quico Fagundes
Eu tinha quase 17 anos e o Sérgio uns 18. Eu tocava violão com floreios clássicos e ele com tempero de bossa nova. Eu preparava vestibular para engenharia elétrica e ele para medicina. Ambos gostaríamos de ter sido músicos profissionais, mas a estrutura da música evangélica da época não permitia. Naquele tempo, o que se conhecia eram os corais, os quartetos masculinos tipo Arautos do Rei, alguns solistas avulsos e, em São Paulo, o missionário Jim Kemp estava consolidando os Vencedores por Cristo. No início, eles cantavam músicas num estilo meio jovem-guarda, americanas traduzidas e usavam uniforme mais para anos 50. O nosso conjunto Ele Vive, era um clone deles. Gostávamos muito das canções de Ralph Carmichael, tipo Existe um lugar, Se eu fosse contar, Volte atrás e outras, com harmonia em 4 vozes e um violãozinho esperto acompanhando. Agora, viver exclusivamente de música, ninguém conseguia. Não havia mercado evangélico ainda. Os discos tinham uma produção caríssima e os mecanismos de divulgação eram muito limitados. Rádio evangélica, só umas duas AM em São Paulo e Rio, mas que ninguém ouvia.
É importante destacar que no início dos 70, estávamos vivendo uma época extremamente fértil na música popular brasileira, onde se destacavam talentos fantásticos como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Carlinhos Lira, Elis Regina, Baden Powell, Luis Bonfá, Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Fernando Brant, MPB4, Os Mutantes e se revelavam garotos mais próximos da nossa geração, como Gonzaguinha, Ivan Lins, Toquinho, João Bosco, Aldir Blanc, Secos e Molhados, Ney Matogrosso, os mineiros Toninho Horta, Wagner Tiso, Flávio Venturini, Beto Guedes, Lô Borges, Moraes Moreira e os Novos Baianos, os nordestinos Fagner, Belchior e Alceu Valença, os gaúchos Kleiton e Kledir e vários outros. Que geração de peso, hein?
Nossa formação musical estava toda baseada nos altos padrões dessa turma, fortemente bossa-nova, mais um pouco de Beatles e não esqueçamos de Pixinguinha, Noel, Garoto e Villa-Lobos. Aí, o Pimenta levava uma grande vantagem sobre os outros músicos evangélicos, pois morava no Rio, de longe o grande centro cultural do Brasil, tinha crescido assistindo os principais artistas ao vivo, chegou a conhecer um ou outro de perto, sua família fazia rodas de samba e de choro entre uma feijoada e um Fla-Flu, e tinha ainda o mar e as calçadas de Copacabana para sobremesa. As antenas da Embratel estavam recém se tornando populares e tudo apontava para o Rio: a televisão, as novelas, os festivais, o cinema, o Fino da Bossa, a Tropicália, o Fusca, o Canal 100, o gol 1000 do Pelé, os Atos Institucionais do governo, as estatais, a dívida externa, etc e tal. Nós assistíamos tudo aquilo pelo tubo da TV, em preto e branco. O Pimenta estava lá de corpo e alma, em cores.
Além disto, os anos 70 foram de muita contestação política e os estudantes do Rio fizeram constantes passeatas, enfrentando pra valer o regime. Alguns morreram em choques com a polícia, muitos foram presos e outros desaparecidos. O Sérgio também tinha coração de estudante e sonhava com um outro país. Embora não tivesse atividade política de esquerda, como era a moda, afinal era filho de militar, estudante do Colégio Militar e bom presbiteriano, acabou sendo um revolucionário no contexto evangélico.
Disponível em http://www.valterjunior.com.br, consulta em 02/02/2005.
Assuntos: Abílio Chagas, ABU, Alceu Valença, Aldir Blanc, Aristeu Pires Jr., Atletas de Cristo, Baden Powell, Beatles, Bela Vista, Belchior, Beto Guedes, Caetano Veloso, Califórnia, Calvary Chapel, Canções, Carlinhos Lira, Chico Buarque, Citações, Cristianismo, Cultura, De Vento em Popa, Dimas Pezzato, Don Wyrtzen, Ederly Chagas, Edu Lobo, Elis Regina, Emilinha Borba, EUA, Fagner, Fernando Brant, Flávio Venturini, Garoto, Geraldo Vandré, Gerson Ortega, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Guilherme Kerr, Harry Bollback, História, Hora do Estudante, Igreja, Ivan Lins, Jaime Kemp, Jesus Movement, João Bosco, João Gilberto, John W. Peterson, Kleiton e Kledir, Lô Borges, Luis Bonfá, Maranatha Music!, Marlene, Marlene Dietrich, Martha Kerr, Música, Mestrado, Milton Nascimento, Monografia, Moraes Moreira e os Novos Baianos, MPB, MPB4, Nelson Bomilcar, Ney Matogrosso, Noel Rosa, os mineiros Toninho Horta, Os Mutantes, Otis Skillings, Palavra da Vida, Pelé, Pixinguinha, Poesia, Quico Fagundes, R. Stanphill, Ralph Carmichael, Rádio Bandeirantes, Rádio Globo, Rádio Mayrink Veiga, Rádio Nacional, Rádio Tupi, Religião, Rio de Janeiro, São Paulo, Sérgio Leoto, Sérgio Pimenta, Secos e Molhados, Tese, Tom Jobim, Toquinho, Tropicália, Vencedores Por Cristo, Villa-Lobos, Vinícius de Moraes, Vitória De Martino Bonnaiutti, VPC, Wagner Tiso, Wolô, Wolodymir Boruszewski, Word of Life



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