Eu Lí o Código

Sala de Estar

Há cerca de dois anos li o polêmico livro de Dan Brown, o Código da Vinci.

Como entretenimento, achei interessante. Mal podia esperar para chegar ao fim da trama e saber qual seria o destino de seus personagens. É um típico romance policial, como milhares de outros. A controvérsia se estabelece porque ele trata de religião, baseado em lendas e teorias mirabolantes sobre Jesus e a igreja.

Muitos cristãos se sentiram ofendidos com Brown, que afirma ter Jesus vivido com Maria Madalena e tido uma filha com ela. Os evangelhos não fazem nenhuma alusão ao fato de Jesus ter ou não sido casado.

Às vezes me pergunto se ele tivesse sido. Sim, porque entre os judeus de seu tempo (e ele era judeu, não nos esqueçamos disso), o costume para os homens de sua idade era que fossem casados. Por outro lado, arqueólogos que estudam os essênios, contemporâneos de Jesus, uma comunidade religiosa de rígidos preceitos morais, afirmam que o celibato era um costume estimulado entre eles. Logo, possivelmente Jesus, a exemplo de João Batista, tivesse tido alguma conexão com esse grupo… Mas isso é uma longa história que eu deixo para que os teólogos analisem e discutam.

Capa do Livro O Código da Vinci

Minha questão é, será que o fato de ser casado mudaria o que ele fez e disse? Minha opinião pessoal é que não.

O que mais me intriga em toda essa discussão em torno do filme, no entanto, é uma outra coisa que ela traz à baila. Outro dia conversando com uma senhora de família católica não-praticante, ouvi sua posição categórica sobre a polêmica levantada pelo autor: “finalmente um livro para esclarecer toda a verdade! A farsa criada pela igreja católica agora foi revelada! Sim, porque por muitos anos ela ocultou os fatos como realmente aconteceram…”

Também outro dia ouvi um pastor afirmando categoricamente de púlpito: “esse livro do Dan Brown é uma blasfêmia! Nós sabemos a verdade, e a verdade é o que a Bíblia diz sobre Jesus!…”

A verdade, a luta pela verdade, o estar certo sobre a verdade, o defender a verdade, o morrer em nome da verdade, o matar por causa da verdade… A certeza, a defesa, a morte. Sinceramente, acho ambas as posições estéreis. Elas me passam uma sequidão de alma, uma aridez enorme. A mensagem do amor e da graça de Deus é tão contundente que fala por si. O silêncio escandaloso da cruz atordoa, cativa, transforma.

As mãos que se estendem para o abraço amoroso não têm discurso. Os lábios que beijam os pequeninos beijam também os poderosos, os pobres e desamparados, os presunçosos e gananciosos, os legalistas e os arrependidos.

O corpo que caminha pelas estradas empoeiradas da Palestina é indefeso, está desprotegido. Mas, mesmo assim, se expõe, porque está em harmonia com os sons que brotam da boca, da mente, da alma, do espírito conectados com Deus, a quem chama de “papaizinho.”

Isso tudo é o que realmente importa, e o que fica.

E chega até nós.

E nos traspassa, e nos leva consigo, e há de vencer o tempo, e chegar aos que virão depois de nós, até o fim dos tempos.

Até quando o presente, o átomo da eternidade, se tornar mais que um simples átomo e se fizer a conjunção de todos os átomos, aglutinados no eterno hoje…

E eu vou ver o filme que o Ron Howard dirigiu, porque, afinal, com US$ 125.000.000 de orçamento, deve ser bem legal.


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Um Comentário

  1. Daniel Caetano Ferreira comentou em 26/05/2006 | Link Permanente

    Gostei da sua visão, também penso que o radicalismo de pessoas tanto católicas como de evangélicos, não chega a lugar algum, e o que é importante não é ressaltado. Fico com sábio princípio da igreja reformada: “Unidade no essencial; liberdade no não essencial e amor em tudo”.
    Grande abraço,
    Daniel Caetano Ferreira

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