Alguns dias se passaram e as pessoas que me acolheram em minha dor e perplexidade, retomaram suas rotinas até serem elas mesmas vitimadas por essa mesma dor e perplexidade.
Nada mais natural. Faz parte da nossa condição. Eu mesmo, quase que imediatamente retomei meus afazeres, ocupei a mente com responsabilidades, prazos, projetos, preocupações… O que fica é uma outra sintonia soando persistente quase que inaudível, composta por acordes longos e tensos e ao mesmo tempo delicados e doces.
Paradoxo da presença que está ausente, da ausência que está presente. Como parte dessa sinfonia, um poema do amigo e poeta Gerson Borges,
Sobretudo Quando Chove
Se apenas uma escolha me restasse
Eu levaria o pôr-de-sol
Ou se uma só herança me bastasse
Um rouxinol
Que cantasse a dor das distâncias
E curasse essa saudade
A me invadir enquanto eu canto
Sobretudo quando choveSe toda a poesia numa palavra
Eu ficaria com jardim
E um tipo só de arbusto ali se lavra
O alecrim
Concentrando o cheiro do longe
Acalmando essa saudade
A me invadir enquanto eu canto
Sobretudo quando choveE chove, e chove, chove sem parar
Enquanto eu canto, canto
Ao te esperarSe cada vez que eu penso no teu rosto
Vento virasse um vendaval
Desabaria o céu com muito gosto
Que temporal!
Tormenta no mar da memória
Rimando com essa saudade
A me invadir enquanto eu canto
Sobretudo quando chove”
Assuntos: Canções, Citações, Família, Gerson Borges, Mãe, Poesia, Saudade



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