Estive sexta e sábado em Niterói, RJ.
Um novo amigo que lá conheci, Gidel, me enviou essa pérola em forma de texto:
Maria roga a Teu Filho que me mostre o Pai. Imagens sobrevêm: homem, vinheta, instrumento, o que ameaça ser um leque de penas e é uma cabeça de naja, a perigosa serpente. Quero ver o Pai, insisto, roga a Teu Filho que me mostre o Pai. Um dente, uma vulva, um molho de nabos comparecem, gerados como eu, do nada. De onde vêm os nabos, Maria? Onde está o Pai? De onde vim? Move-se na parede um cavalo de sol. É o Pai? Não, é só uma sombra e já se desfaz. O Pai, então, é uma usina? Meu Pai dizia: Ó Pai! E levantava os braços respeitoso. Também meu avô: Deus é Pai! E tirava o chapéu. Assim, um pai remetendo a outro e mais outro e outro mais, enfim, a milhões de pais até Adão, que sou eu acordando de um sonho, apenas ‘raia sangüínea e fresca’ a madrugada, filha de pamasiano, que me encantava quando eu era mocinha, filha de ferroviário, cansada agora como feirante ao meio-dia: ai, meu pai, me ajuda a torrar o resto deste lote de abóboras, me tira da cabeça - a idéia de ver Deus - Pai me dá um pito e um café.
Oráculos de Maio, p. 124 - Adélia Prado
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