Era uma vez uma menina sonhadora. A famosa “raspa de tacho”. Sua mãe, filha de italianos havia se casado e tido 10 filhos. Oito morreram antes dos dois anos de idade. Aos 36 anos, viúva, essa mãe sofrida encontra um português que por ela se apaixona. Em pouco tempo eles se casam e a menina que ama sonhar nasce pra dar ainda mais sabor a essa união inesperada.
Aos 17 anos, essa menina que tem a cabeça nas nuvens parte, com seu pai, para uma viagem de seis meses a Portugal. Eles vão de navio. Como ela havia sonhado. Até hoje, 48 anos depois, as imagens, sensações e memórias dessa viagem permanecem intactos, como que imunes ao tempo.
A menina volta, tempos depois se casa com seu grande amor e vive uma vida de muitas lutas, desejos não realizados e sonhos frustrados. O maior deles talvez tenha sido o de não ter conseguido seguir adiante nos estudos.
Ela, no entanto, sempre adorou ouvir histórias e recontá-las. Passei minha infância e vez por outra ainda passo horas ouvindo seus casos, comentários sobre filmes e livros, percepções acerca da vida.
Essa paixão pela imaginação a tornou uma mulher sábia e perspicaz, simpática e carinhosa, amiga, querida por muitos.
Semana passada a menina sonhadora deu um susto na gente. Foi parar na UTI. Felizmente já saiu. Sua presença no almoço do próximo dia 25 será o maior presente de natal que eu poderia receber. Além, é claro, da herança de sonho e de amor às histórias que eu, como filho, recebi de bom grado e quero passar adiante aos meus.
Se eu pude aprender a tocar um instrumento (como é bom poder tocar um instrumento!), escrever canções, viajar levando-as comigo e repartindo-as com os outros mundo afora, devo boa parte disso a essa eterna menina sonhadora que me ensinou o amor às letras e às viagens por terras nunca dantes navegadas.
Obrigado mãe.
Feliz natal, mais um entre nós.
Assuntos: Família, Mãe, Natal, Vida



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