Elas são fundo musical dos anúncios televisivos. Às vezes, compõem o som intermitente que ecoa pelos corredores largos e enfeitados dos muitos shopping centers espalhados pela cidade. Ou são ainda parte da sinfonia monótona e confusa, reproduzida nas caixas acústicas dependuradas desajeitadamente sobre as barracas dos camelôs no centro da cidade.
Por certo, também povoam nossa memória infantil, reportando-nos à mesa cuidadosamente decorada, cercada por pais, irmãos e amigos, ou talvez sirvam como lembrança incômoda de nossa frustração pela ausência da mesa farta ou daqueles que nos são queridos.
São quase que impostas sobre nós pelo que chamamos de herança cultural. Ou seria pelo poder econômico? Não. Recuso-me a ser tão cético e ver a vida tão cinza e sem graça…
Hoje, no entanto, às vésperas de mais um Natal, gostaria de deixar de lado a tradição, e mergulhar no exercício da tradução. Essas canções necessitam de uma revisão profunda. Não em si mesmas, mas a partir de nós, de como as lemos e assimilamos. Caso contrário, a proximidade das festas natalinas há de ser, como em tantas outras ocasiões, prenúncio de martírio, a ante-sala da depressão e da angústia.
“Bate o sino pequenino, sino de Belém…”, o que seria dessa frase, senão uma repetição vazia, um convite à alienação, sem o complemento do segundo verso, “já nasceu o Deus-menino, para o nosso bem”? Como dizer que a noite é “feliz”, sem que brilhe “a estrela da paz”?
Neste Natal, o grande desafio, antes de taparmos os ouvidos aos primeiros acordes daquelas velhas canções como sinal de irritação e protesto, é o de irmos fundo na essência da mensagem natalina: há esperança, há razão para nos alegrarmos e amarmos a vida, de lutarmos por ela.
Temos ajuda do alto, força para encararmos dificuldades e tribulações.
O céu chegou mais perto.
Deus se fez amigo.
Assuntos: Canções, Esperança, Natal, tédio




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