BLOG DO JORGE

Travessia

Uma viagem literário-musical de sensibilidade e espiritualidade.

Sala de Estar

SOBREVIVENTE

Meu querido amigo Gladir Cabral, um de nossos maiores letristas e com quem amo conversar pelo simples prazer da conversa, certa vez me presenteou com uma frase de rara profundidade: “Jorge querido, a graça não está na resposta, mas na pergunta!”
A vida é assim mesmo.
Muitas perguntas, poucas respostas.
Mas são as perguntas que dão sabor a ela.
Se tudo estivesse explicado, “said and done” [dito e feito], qual seria o seu encanto, seu mistério, sua riqueza?
Agora mesmo, ao ler as notícias sobre mais um acidente aéreo, trágico, lamentável, constato, estupefato, que uma garota de 14 anos, tímida e frágil, foi encontrada viva entre escombros e vários corpos inertes. Como explicar esse fato? Como justificar tamanha improbabilidade?
Eu simplesmente não sei o que dizer.
Sou tão pequeno diante da imensidão das estrelas, da extensão assustadora dos corredores cósmicos, das células incontáveis que compõem meu corpo, dos labirintos sem conta do meu próprio coração.
A mim me resta fazer meus os versos do também fantástico letrista Gonzaguinha em sua ode à vida, “mas isso não impede
que eu repita:
é bonita, é bonita
e é bonita!”

Alguma pergunta?
sobrevivente

MICHAEL JACKSON E A SAGA HUMANA

O som do Michael nunca fez a minha cabeça, embora reconheça nele um extraordinário talento, uma incrível criatividade e uma enorme sensibilidade.
Sua trajetória como artista e como homem, no entanto, tem muito a me dizer.
E fala (chega mesmo até a gritar) sobre o que temos de mais humano: nossa capacidade de transcender a nós mesmos através de nossas realizações, de nossa inventividade, de nossa arte, e assim eternizarmos a nossa obra. Já dizia Sêneca [citando Hipócrates], “longa é a arte, breve é a vida”.
Sua senda também me ensina sobre a nossa vocação, como seres humanos, para apresentarmos no palco da vida um espetáculo inusitado e surpreendente, repleto ora de elementos de glória sublime, ora de tragédia pungente.
E isso é comum a todos nós.
Todos tivemos, temos ou teremos momentos singulares de realização, de contentamento, de vitória.
E também já vivemos ou viveremos tempos de dor, de luto, de vergonha, de desterro.
Esse é o caminho dos que são a coroa desta criação.
Esse foi o caminho descrito no livro sagrado que o Cristo de Deus percorreu.
Da eternidade em harmonia triuna ele se esvazia tomando a forma de escravo, vivendo entre os homens, morrendo entre ladrões.
E é então exaltado, recebendo o nome que está acima de todo nome.
Eu poderia ocupar espaço falando dos escândalos, das dívidas, do isolamento, das deformações físicas e psicológicas que sempre ocuparam o cotidiano do ser humano Michael.
Prefiro, no entanto, refletir sobre as minhas próprias imperfeições, distorções, incoerências e enfermidades que, aliás, todos temos em diferentes formas e momentos.

E nisso tudo, it doesn’t matter if you’re black or white!

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PILARES

A casa onde morei dos 8 aos 25 anos e que frequentei até bem pouco tempo, quando da morte de minha mãe, ficava no fim de uma longa decida. Uma linha de ônibus que passa no local fez com que o proprietário, que nela morava antes de nos mudarmos, construísse quatro pilastras de concreto, fincadas na calçada em frente ao portão. A ideia é que, se algum dia um daqueles ônibus perdesse os freios, não fosse parar na sala de estar…
Nenhum ônibus jamais deixou de fazer a curva, mas os pilares estão lá. Servem como sinais de identificação, pontos de referência, lugar de descanso aos que passam por lá perdidos e, por fim, como colunas protetoras de um perigo possível.
A vida da gente também necessita de pilares de sustentação, que nos marquem, que nos orientem, que nos sirvam de refrigério e que nos protejam.
Não que com eles estejamos imunes aos desencantos, desencontros e descaminhos da existência. Isso tudo faz parte da nossa condição humana.
Se quisermos ser humanos, assim é que é. Se não quisermos, assim será do mesmo jeito.
Quando leio os evangelhos [e também outros textos sagrados], observo que a essência da vida, que esses pilares que mencionei, é basicamente a mesma: amor a Deus e amor ao próximo.
Nossos alicerces estão lançados sobre estas duas grandes plataformas.
Mas, o que significa amar a Deus?
Penso que amá-lo é notá-lo. Constatar sua presença no mundo, no cotidiano, nas expressões artísticas, nas relações em família.
E constatar também a sua ausência. “Tu és um Deus que te escondes”, já dizia o erudito profeta hebreu. Ter saudades dos lugares divinos onde nunca estive, de ouvir sua voz orientadora, em busca de equilíbrio, de justeza.
Sua ausência, no entanto, me chama à responsabilidade e à maturidade diante das decisões que tomo e do rumo que dou à minha própria vida.
É, antes de tudo, ter uma atitude de profunda reverência diante do mistério que me envolve, buscar beber dessa fonte inesgotável, obtendo da água de seu conhecimento, sabedoria e beleza os nutrientes capazes de me manter vivo.
E o que quer dizer amar ao próximo?
Observo com tristeza que o mundo onde vivo é um lugar repleto de religiosidade, de observância de dogmas e de doutrinas que, na maioria das vezes, não se traduz em ações concretas em favor do outro, em prol da vida. A obediência à lei religiosa se sobrepõe à generosidade, à misericórdia, ao perdão e à compaixão. A gente sempre acaba encontrando desculpas, de toda ordem, para sermos menos generosos, menos misericordiosos, menos perdoadores, menos compassivos. Afinal, já fomos vítimas de pessoas que tripudiaram sobre nosso gesto generoso, que nos enganaram quando demonstramos misericórdia, que ignoraram nosso perdão, que foram insensíveis diante da nossa compaixão.
Esses gestos, essa postura diante da vida, no entanto, é que nos dão chão, força e prumo. Sem eles corremos o risco de passar em branco por este mundo, de vivermos vidas instáveis, insípidas e inconsistentes.
Os pilares aí estão. Feito aquelas pilastras de concreto à porta da casa onde morei.
E que fazem com que eu a tenha guardado no coração, como o lugar onde me tornei quem sou.

AMOR INDEFINIDO

Ano passado gravei dois clipes musicais para o programa Plataforma (www.plataforma.art.br). Num deles, interpretei a canção Amor Incondicional, de minha autoria. Antes da música, no entanto, a produção do programa colheu alguns depoimentos meus, que editados, servem como introdução da canção propriamente dita. Sou indagado sobre uma definição do que é o amor. Respondo que não sei defini-lo, e que não sou a pessoa mais apropriada para dar essa definição.
Meses depois, quando o programa entra no ar, fico surpreso com a minha própria resposta. Queria ter respondido alguma coisa…
Acho que a gente é assim mesmo.
Somos filhos da modernidade.
Nascemos sob a influência esmagadora da racionalidade, do cientificismo, das respostas pra tudo, das dissecações cadavéricas que explicam o inexplicável, definem o indefinível e determinam o que não se pode determinar.
Talvez daí o meu susto.
No fundo esperava poder dar uma resposta satisfatória, bela, embasada em boa teologia, filosofia ou qualquer outro artifício humano de argumentação. Confesso que fiquei desarmado. O amor literalmente nos desarma.
E nos silencia.
Impossível não lembrar das célebres palavras de Francisco de Assis, ‘prega o evangelho. Se for preciso, use palavras’.
Palavras que ninguém sabe ao certo se ele realmente disse. O que importa? Sua vida de entrega radical ao que acreditava e amava disse!
Como o profeta Jeremias, chamado por Deus a uma vida de excelência (se você correu com homens e eles o cansaram, como poderá competir com cavalos?) não responde a indagação divina.
Silencia.
No entanto, sua vida inteira dedicada a anunciar e a prantear as mazelas de seu povo respondeu.
Há poucas coisas na vida que realmente posso afirmar que sei definir.
Poucas mesmo.
Decidi que é melhor mergulhar de corpo e alma nesse rio misterioso de águas profundas que é a existência.
Nu (que é como eu vim a ela) e nadando com braçadas largas, radicalmente entregue à corrente, confiante de que ele há de desaguar num mar infindo do amor mais profundo que define aquele que é indefinível como amor, amor que é a maior que o nosso coração.

No Tempo e no Espaço

Vinte e cinco anos se passaram desde que escrevi em parceria com Guilherme Kerr a canção “Muitos Virão Te Louvar”.
Costumo dizer que ela é como uma filha que nasceu, cresceu, tomou vida própria e que viaja por lugares inusitados e distantes, e que faz amizade com gente que eu nunca vi, e que quando chego, tanto tempo depois, me recebe de braços abertos por conta da filha-canção que chegou primeiro.
Recebi via e-mail um presente especial como que pra celebrar estes vinte cinco anos. Uma foto com a letra desta canção na língua kaiwá.
Só posso ser grato por ela ter viajado tanto. E fazer côro à alegria de Caetano: “como é bom poder tocar um instrumento!”
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ANO NOVO COM DRUMMOND

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Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

NATAL… TÉDIO OU ESPERANÇA?

Elas são fundo musical dos anúncios televisivos. Às vezes, compõem o som intermitente que ecoa pelos corredores largos e enfeitados dos muitos shopping centers espalhados pela cidade. Ou são ainda parte da sinfonia monótona e confusa, reproduzida nas caixas acústicas dependuradas desajeitadamente sobre as barracas dos camelôs no centro da cidade.
Por certo, também povoam nossa memória infantil, reportando-nos à mesa cuidadosamente decorada, cercada por pais, irmãos e amigos, ou talvez sirvam como lembrança incômoda de nossa frustração pela ausência da mesa farta ou daqueles que nos são queridos.
São quase que impostas sobre nós pelo que chamamos de herança cultural. Ou seria pelo poder econômico? Não. Recuso-me a ser tão cético e ver a vida tão cinza e sem graça…
Hoje, no entanto, às vésperas de mais um Natal, gostaria de deixar de lado a tradição, e mergulhar no exercício da tradução. Essas canções necessitam de uma revisão profunda. Não em si mesmas, mas a partir de nós, de como as lemos e assimilamos. Caso contrário, a proximidade das festas natalinas há de ser, como em tantas outras ocasiões, prenúncio de martírio, a ante-sala da depressão e da angústia.
“Bate o sino pequenino, sino de Belém…”, o que seria dessa frase, senão uma repetição vazia, um convite à alienação, sem o complemento do segundo verso, “já nasceu o Deus-menino, para o nosso bem”? Como dizer que a noite é “feliz”, sem que brilhe “a estrela da paz”?
Neste Natal, o grande desafio, antes de taparmos os ouvidos aos primeiros acordes daquelas velhas canções como sinal de irritação e protesto, é o de irmos fundo na essência da mensagem natalina: há esperança, há razão para nos alegrarmos e amarmos a vida, de lutarmos por ela.
Temos ajuda do alto, força para encararmos dificuldades e tribulações.

O céu chegou mais perto.

Deus se fez amigo.

EU VI A DEUS

Todos têm acompanhado pela mídia a situação difícil do povo catarinense.
Em casa, nos mobilizamos e tiramos do armário as roupas menos usadas, os brinquedos já não tão populares e fomos à sede da Defesa Civil para entregarmos o que recolhemos. Ao nos aproximarmos do prédio, notamos uma fila enorme de carros e caminhões e fomos informados de que uma igreja evangélica na mesma rua havia cedido as dependências de seu templo para arrecadar donativos, uma vez que o espaço de que a Defesa Civil dispõe estava tomado, tal a resposta da população, sensibilizada pela tragédia das chuvas no sul.
Já na igreja, fomos recepcionados por um senhor de sorriso largo que ao ver um saco em minhas mãos saudou-me com a ‘paz do Senhor’, orientando-me a depositá-lo ali mesmo na portaria.
Quando viu que eu carregava outros, chamou-me de ‘abençoado’, à medida que lançava meus pacotes por sobre uma montanha às suas costas.
Por fim convidou a mim e a minha esposa que olhássemos dentro do templo o que havia sido arrecadado até ali.
Nos emocionamos diante de uma quantidade imensa de caixas de todos os tipos, amontoadas aos milhares no salão enorme onde se reúne a igreja.
À saída, ele nos indagou: ‘viram a presença de Deus no templo?’
A caminho de casa, a frase ressoava em meus ouvidos… ‘viram Deus…?’
Deus a gente não vê.
Só enxerga no outro.
Sua imagem se materializa em corpos famintos, em olhos fundos, sedentos.
E em caixas, muitas caixas.
Tenho lutado comigo mesmo para não ‘empacotar’ Deus em meus próprios conceitos, teologias e devaneios. Ele não se presta a esse tipo de padronização.
Mas foi bom enxergá-lo, dentro de um templo evangélico, não no que o pastor, o padre, o pai de santo, o monge diriam a seu respeito, mas embalado em caixas, sacos e pacotes de solidariedade onde o amor, que é a sua essência, não tinha rótulos religiosos, mas manifestara-se em gestos concretos de cuidado, interesse e zelo pela vida.

Programa Plataforma

O programa Plataforma é um projeto que envolve entrevista e clipes de artistas cristãos de vários estilos musicais, com produção visual de primeira, algo totalmente novo no cenário da MPC brasileira.

Para acessá-lo vá em www.plataforma.art.br.

A entrevista-participação musical de Jorge Camargo estará disponível a partir de 21 de novembro de 2008.

LETRA MORTA - NOVA VERSÃO

Gravada no NMB (Nossa Música Brasileira) em 30.08, Letra Morta ganha essa nova versão com Jorge acompanhado por Gilson Oliveira na percussão e Jorge Ervolini na guitarra.

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Lançamentos

somosum.gifO Melhor de Mim Álbum Duplo - Esta coletânea, resultado da parceria com a EcoTVBrasil, é fruto de um projeto que se iniciou com o Livro-CD "Somos Um". Seu título, "O melhor de Mim", é o retrato de uma trajetória de mais de duas décadas dedicadas à produção e veiculação de música cristã brasileira

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somosum.gifSomos Um - Uma combinação de fragmentos biográficos, reminiscências, poesia e música, tudo ocupando um mesmo espaço e falando uma mesma língua. Juntamente com o livro, você adquire também um CD com essas mesmas canções, compostas especialmente para o projeto. Para ler e ouvir. Refletir e crescer.

Workshop

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Há vários anos Jorge tem ministrado o curso "Faça Suas Próprias Canções" em todo o Brasil e em outras partes do mundo. Trata-se de um módulo de 4 horas que aborda os temas "A importância da Poesia", "Técnicas para a elaboração de textos poéticos" (letras de música), e "Aula Prática"

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