BLOG DO JORGE

Travessia

Uma viagem literário-musical de sensibilidade e espiritualidade.

Sala de Estar

PÔR-DE-SOL

Chegando em casa, de carro, fim de tarde, deparei-me com o sol, imenso e belo, deitando-se preguiçosamente no horizonte.

Querendo eternizar aquele momento ao mesmo tempo recorrente e surpreendente, eu o fitei com toda a intensidade. Foram apenas alguns poucos segundos, até meus olhos arderem, doloridos e cegos.

Não dava pra não saborear o momento, não beber o alumbramento, não comer a luz deslumbrante, a cor tão profunda.

Mas ficou a lição: é impossível ter tudo. O pôr-do-sol é momento. E só a beleza do momento é eterna.PÔR DE SOL

A NOBREZA DE BETÂNIA

Maria Betânia

Em tempos de eleição, me emocionei com o apoio de Betânia a Marina Silva.

Betânia, um dos baluartes artísticos e representantes expressivos das religiões afro-brasileiras apóia Marina, a evangélica.

Sem qualquer constrangimento. Olha para o ser humano e suas ideias, sua utopia, sua integridade.

Estou certo que nem passou por sua cabeça qualquer questão de ordem religiosa.

Por outro lado, os líderes institucionais da denominação cristã à qual pertence Marina, que durante décadas reivindicaram um candidato evangélico para representá-los apropriadamente, apoiam outro candidato, mais afinado com seus interesses.

Chega a ser irônico, se não fosse trágico.

http://www.youtube.com/watch?v=5f-JhMoyLUI

SUPORTE INUSITADO

“O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai.”

Jesus de Nazaré.

A vida é repleta de surpresas.

Todos temos uma história, recebemos uma herança de conhecimento, de experiências, de fé (e em muitos casos de descrença).

Em momentos de crise, de fragilidade, de perguntas agudas, de dor, de escuridão, eis que surge uma palavra que consola, o abraço acolhedor, a comunhão de alma.

E de lugares e fontes muitas vezes inusitados, improváveis, inconcebíveis até, para desarmar nossas estruturas, render nossas defesas, revelar (e eventualmente transpor) nossos limites, tornando-nos melhores, mais sensíveis, mais humildes, mais humanos.

É por essas e outras que a vida é essa viagem, dolorida sim, porém fascinante e misteriosa.

Celebro com gratidão infinita todo apoio, todo acolhimento, todo suporte inusitado.suporte inusitado

TÁ DOENDO

band aid heartTÁ DOENDO

Na década de 1990, um dos muitos livros do Caio Fábio, uma referência em se tratando de espiritualidade cristã no país foi lançado, e tinha como título “O privilégio de poder simplesmente dizer ‘Tá Doendo ‘“.

Lembro-me da arte da capa, com um band-aid em relevo pra ilustrar uma dor sob tratamento.

Eu e você vivemos num mundo forrado de feridas.

É tanta gente dolorida, e as razões para isso são as mais diversas: a perda de um ente querido ainda na infância ou de uma referência familiar até mesmo na vida adulta, os desencontros no amor, a falta de ânimo, a ausência de perspectiva, uma doença sorrateira e inesperada, um medo inexplicável e insistente.

Dores no corpo, dores com emoção, dores de alma.

Eu me incluo humildemente na lista dos doloridos.

Em parte pelas razões acima, em parte pelas próprias feridas que eu mesmo causei ou que me foram causadas por terceiros, não importa, as dores não escolhem direção nem guarida. Elas são o que são, e estão onde estão, pelo tempo que lhes convier. Simples assim.

Digo humildemente, porque já desisti de querer viver sem a presença enriquecedora e purificadora da dor. E mesmo que não quisesse viver sem ela, de nada importa. Ela é parte de minha condição humana, de meus limites, de minha finitude. Viver é também doer.

Mas, pensando bem, o que seria de nossa vida sem a possibilidade da cura para a dor? Haveria outro chamado para a esperança?

E talvez, de todas, a pergunta que não quer calar: como suportar a dor com dignidade?

Para tentar respondê-la, lanço mão da força da poesia, num verso de nosso compositor maior, Chico Buarque:

Amar é iluminar a dor, como um missionário…”

Ou da bela estrofe de um grande amigo e parceiro, Gladir Cabral:

Deixe-se levar pelo amor

Deixe-se molhar pelo mar

Deixe o sal tocar sua dor

Deixe a luz do sol consolar…

A DELICIOSA ANTÍTESE APOCALÍPTICA DE TOM ZÉ

Menina amanhã de manhãTom ZéNa herança cristã, o livro do Apocalipse é bastante controvertido. Desde as discussões iniciais sobre se deveria ou não ser incluído no cânon do Novo Testamento, até sua comparação com os outros textos de literatura apocalíptica, através de vinte séculos de história, ele tem tido as mais diversas interpretações. Nas idades moderna e contemporânea, no entanto, as conclusões sobre ele têm sido as mais mirabolantes. De um livro escrito para encorajar os cristãos sob intensa perseguição romana, um texto cujo tema central era a esperança, o Apocalipse passou a ser sinônimo de catástrofe e de destruição, de escapismo e de alienação.

Aí vêm os nossos amigos poetas da MPB, pra nos ajudar a resgatar valores que nos são tão caros e que incluem a felicidade vindoura e a esperança escatológica, como no caso da linda canção do Tom Zé, Menina Amanhã de Manhã, que afirma categoricamente que a felicidade irá desabar sobre os homens, em contraste agudo com a morte e a destruição prenunciadas pelo texto sagrado e que desabam sobre a humanidade. E mais, a felicidade como um bem inexorável, inevitável, quase que imposto à vida, do qual ninguém pode (nem gostaria de) escapar. E terminando com um convite sutil: “não queira dormir no ponto”. A felicidade está à mão. Não deixe que ela vá embora, menina.

Pra não terminar sem fazer justiça ao Apocalipse, o contraste entre a canção e o livro não é tão gritante assim: apesar de falar sobre destruição e morte, o livro termina falando de vida, de paz duradoura, de cura para as nações, de felicidade enfim.

Menina amanhã de manhã
Quando a gente acordar
Quero te dizer que a felicidade vai
Desabar sobre os homens, vai
Desabar sobre os homens, vai
Desabar sobre os homens

Na hora ninguém escapa
Debaixo da cama, ninguém se esconde
A felicidade vai
Desabar sobre os homens, vai
Desabar sobre os homens, vai
Desabar sobre os homens

Menina, ela mete medo
Menina ela fecha a roda
Menina não tem saída
De cima, de banda ou de lado
Menina olhe pra frente
Oh! Menina, tome cuidado
Não queira dormir no ponto
Segure o jogo, atenção
De manhã…

http://www.youtube.com/watch?v=sivP3e6ipB0

1974 – A COPA COLORIDA

A copa de 74, na Alemanha,  já assisti de TV colorida.

O time do Brasil era o de 70 envelhecido, e sem Pelé. Aí deu no que deu. Eliminação na segunda fase, diante da sensação da competição, a Holanda, chamada de “Laranja Mecânica”.

Além das cores vivas saltando do televisor, lembro-me que foi um tempo de perda na família: meu tio Argenor, apelidado de Cipó, segundo meu pai, um grande goleiro.

A final, recordo de ter visto em casa mesmo, torcendo pra que vencesse o melhor. E deu Alemanha contra a Holanda, 2×1. Os germânicos beberam suco de laranja como prêmio.

E o futebol continuou encontrando cada vez mais espaço em meu coração.

Emoções mais fortes estavam por vir…copa-alemanha-1974-01

CRISTÃO RELUTANTE

Nada como um bom título de CD, quadro ou livro. É feito cereja no bolo.

Foi a impressão que tive quando li a obra de Donald Spoto,  cujo título não poderia ser mais apropriado: Francisco de Assis, o Santo Relutante.

Um santo homem que dispensou o título, talvez por não achar-se digno dele.

Ou talvez por sua indiferença às instituições, seu desapego radical a tudo o que se cristaliza e acaba engessado.

Mas aí pensei em meu próprio bolo, minha trajetória de vida.

E o subtítulo da biografia de São Francisco me fez pensar em um subtítulo para a minha. Uma cereja nem um pouco saborosa.

Aí cheguei a esse aí em cima, “cristão relutante”.

Antes que me ataquem pedras (o mundo virtual é um lugar perfeito para esse tipo de comportamento), meu problema não é com Deus. Lembrei de uma canção do Keith Green (1953-1982), músico e compositor norte-americano que chacoalhou o ambiente da música cristã de lá no final da década de 1970, início da de 1980, intitulada “How can they live without Jesus?” (Como eles podem viver sem Jesus?):

Cause phonies have come

And wrongs been done

Even killing in Jesus´ name

And if you´ve been burned

It´s what I´ve learned

The Lord´s not the one to blame

Em tradução bem livre, o que ele diz é o seguinte:

Porque impostores têm vindo

Erros têm sido cometidos

Até mesmo matar-se em nome de Jesus

E se você tem se ‘decepcionado’

O que eu tenho aprendido

É que não devemos colocar a culpa em Deus

Minha relutância não é em relação à pessoa e à mensagem de Jesus. Amor ao próximo, misericórdia, generosidade, compaixão, sensibilidade, bom senso, a esses pensamentos, sentimentos e atos transbordando numa pessoa, não há coração de pedra que resista.

Minha relutância é ao que tem sido feito de tudo isso.

Empreendimentos milionários, organizações gigantescas, instituições burocráticas, templos suntuosos e na maioria das vezes inúteis parecem não combinar, não fazer sentido à luz da mensagem-pessoa.

Diante desse cenário esquizofrênico, talvez nos reste o silêncio.

E o sábio conselho do relutante Francisco, “prega o evangelho, se for preciso, use palavras.”

DE ONDE VEIO A LUA?

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Bia me perguntou de onde veio a lua.

Revirei na memória resquícios de meus parcos conhecimentos de astronomia. O esforço foi vão. Resgatei informações mínimas e inúteis.

Parti então para o ataque. E a arma do artista, diferente das dos soldados, é a imaginação.

Disse a ela que a lua era filha da terra.

Sem titubear, Bia perguntou-me sobre as estrelas.

Eu disse que a terra era filha do sol, que era irmão das estrelas.

Que a lua, portanto, era neta das estrelas. O cosmos, o universo imensurável, feito de vácuo, de pó estelar, de cometas, de asteróides, de estrelas, planetas e luas, é todo ele uma grande família.

Constatei, mais uma vez, então, que os mistérios e as imensidões não se explicam, não são dissecados na mesa fria da lógica cientificista árida e sem vida.

Lembrei-me mais uma vez que a poesia e a arte se encarregam, não de explicar, mas de apresentar, de introduzir, de aproximar distâncias tão irreconciliáveis, grandezas tão avassaladoras, quando nos convidam a imaginar. Que elas nos tiram para dançar entre amigos e em amor  a dança daqueles que nos amam: família.

Assim até a Trindade, ela mesma uma família coesa e amorosa que não se explica, dá sentido, traz inspiração à vida.

E Bia tem apenas cinco anos.

E Bia é fruto do meu amor.

E Bia é minha filha.

Parte iluminada de minha família.

HAITI

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Meu querido amigo Gerson Borges e eu escrevemos esta canção para o Haiti…

HAITI

É grande

A tua dor aí

Bem antes

Do tremor ouvi…

Dessa angústia de não ser

Do desejo de crescer

O teu passado rico reviver

Da memória do terror

Sempre escravo sem valor –

A dor da alma é mais que qualquer dor

É grande

A tua dor aí

Bem antes

Do tremor ouvi…

Quando a terra se abriu

Tua gente engoliu

E o pouco de esperança se esvaiu

Mas o dia então virá

E a alegria chegará

O tempo quando a vida reinará

Por tudo o que eu vi

Eu choro aqui

E peço a Deus por ti

Por água e pão

Por reconstrução

Dos sonhos que vingarão

Terra doce e deslumbrante

Povo amigo siga adiante, Haiti

Céu azul e o mar defronte

Te abençoe o horizonte, Haiti!

JORGE CAMARGO 30

Em novembro de 1980 fui ao antigo Teatro Nídia Lícia, na Rua Domingos de Moraes em São Paulo para assistir ao lançamento do Grupo Elo, Nova Canção. Abrindo a noite, Nelson Bomilcar ao violão dirigiu a platéia em algumas canções de louvor. Foi a primeira vez que nos vimos. Semanas depois, a convite dele, entrei em estúdio para colocar violão em duas canções do novo disco dos Vencedores, Salmos.

Foi o início “oficial” da minha jornada pela música.

Em 2010, portanto, celebro 30 anos de história na música brasileira, popular e cristã.

O projeto, que ainda é um sonho, é o de registrar os momentos mais significativos dessa trajetória em um DVD-CD duplo. Trinta canções. As mais conhecidas e outras, algumas delas inéditas. Uma releitura do passado e uma aventura no futuro.

Quero ouvir sua sugestão sobre a canção (ou canções) que gostaria de ver/ouvir nesse projeto.

Vamos sonhá-lo juntos.



Lançamentos

somosum.gifDe Vento em Popa - Fé Cristã e Música Popular Brasileira - Adquira o novo livro de Jorge Camargo, De Vento em Popa - Fé Cristã e Música Popular Brasileira através do site da Editora Reflexão.

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somosum.gifO Melhor de Mim (álbum duplo) - Esta coletânea é resultado da parceria com a EcoTVBrasil. "O melhor de Mim", é o retrato de uma trajetória de mais de duas décadas dedicadas à produção e veiculação de música cristã brasileira.

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somosum.gifSomos Um - Uma combinação de fragmentos biográficos, reminiscências, poesia e música, tudo ocupando um mesmo espaço e falando uma mesma língua. Juntamente com o livro, você adquire também um CD com essas mesmas canções, compostas especialmente para o projeto. Para ler e ouvir. Refletir e crescer.

Convites

Para ter Jorge Camargo em sua cidade é simples: envie um e-mail para contato@jorgecamargo.com.br e solicite as informações de que necessita.


Workshop

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Há vários anos Jorge tem ministrado o curso "Faça Suas Próprias Canções" em todo o Brasil e em outras partes do mundo. Trata-se de um módulo de 4 horas que aborda os temas "A importância da Poesia", "Técnicas para a elaboração de textos poéticos" (letras de música), e "Aula Prática"

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