BLOG DO JORGE

Travessia

Uma viagem literário-musical de sensibilidade e espiritualidade.

Sala de Estar

DOIS DISCOS NA PRATELEIRA

Feito Amanhecer/Salmos – Dois discos em um. Registro fonográfico dos 2 primeiros trabalhos-solo de Jorge Camargo agora disponíveis para compra no site.

jorge camargo feito e salmos

Preço: R$ 12 (mais despesas de correio)

Surpreendente Graça – Coletânea que inclui canções que mencionam a palavra e/ou tema “Graça”, acrescida de 2 canções inéditas, “Trono de Graça” e “Respostas”

surpreendente graça
Preço: R$ 12 (mais despesas de correio).

Pedidos pelo e-mail, contato@jorgecamargo.com.br.

CONVITES 2010

Para ter Jorge Camargo em sua cidade é simples: envie um e-mail para contato@jorgecamargo.com.br e solicite as informações de que necessita.

O VELHO ESPELHO MÁGICO

Durante meus vinte e cinco anos morando com meus pais, o velho espelho da penteadeira de estilo clássico foi onipresente. Desde pequeno lembro-me de contemplá-lo para ajeitar o cabelo, a roupa, os sonhos e a alma. Mesmo depois, sempre quando ia à casa de meus pais, passar por ele era quase que um ritual obrigatório, uma maneira de reconciliar-me comigo mesmo e com a minha própria história.

Na adolescência, inúmeras foram as vezes em que cantei e toquei diante dele pra corrigir a postura e vencer a timidez.

Ele foi um bom amigo, alguém que me encorajou a dizer as coisas que digo em verso, som e canção.

E até hoje me ajuda a ver-me como sou: registrando os cabelos caídos, as rugas que denunciam as marcas do tempo e o brilho nos olhos que me faz perseverar no que acredito.

Depois da morte de minha mãe, ele saiu de cima da penteadeira e foi para a casa dos meus sogros no interior.

Hoje, véspera de Natal, enquanto escrevo este texto, Verônica, uma de minhas filhas, está dançando diante dele, se imaginando a bailarina mirim que já é e a bailarina profissional que poderá vir a ser.

Ao presenciar a cena, singela e ao mesmo tempo sublime, foi impossível não deixar que minha mente viajasse no tempo, imaginando os personagens que passaram diante dele, os momentos por ele registrados, as histórias que ele ajudou a contar, as saudades que ele suscita.

Um espelho é um luzeiro. É, ao mesmo tempo, um depósito, um relicário de sentimentos, pensamentos e emoções.

Ao me olhar nele pela enésima vez, vasculho em meu rosto traços de esperança. E os encontro todos.

Como se não bastasse tantos registros, tantas marcas, tantas memórias, o velho espelho projeta o futuro.

É espelho mágico.

espelho

NATAL QUE RESISTE

Eu já sei.

E você tem razão.

O mundo não é mais o mesmo.

Todas as grandes utopias, todos os sonhos revolucionários, todas as possibilidades de transformação transformaram-se em pó.

Olhando em muitas direções, o que se vê é desencanto. Ausência de liderança. Falta de compaixão, de decência, de ética, de solidariedade.

E aí vem chegando o Natal, e no coração das pessoas de bem bate uma inquietação, uma certa angústia, um desejo quase frustrado de que tudo fosse diferente, que a vida fosse mais bela, mais valorizada, mais leve, mais gentil, mais nobre, mais viva.

A tentação inicial é a de ceder ao pessimismo, afinal, tantos Natais se passaram, e pouca coisa mudou. No entanto, o que seria de nosso pobre planeta se não houvesse Natal?

Se refletirmos bem, porque houve um Natal, porque Cristo nasceu e trouxe consigo a mensagem revolucionariamente doce da entrega a Deus e ao semelhante, o mundo ainda respira,

palpita,

reage,

desperta,

resiste,

enfrenta as forças do mal,

sonha,

vislumbra,

transcende,

transgride em favor da paz,

transpõe as barreiras do ódio e da indiferença

e prova a si mesmo que amar ainda é possível.

Por isso, não deixemos de celebrar. Por mais paradoxal que possa parecer, é preciso festejar. A festa é eucaristia, é lembrança repetida de um gesto que se eterniza e que renova a esperança que ele enseja, inspira.

A todos, um feliz Natal!

SONHOS NÃO ENVELHECEM

“…agora eis que hoje tenho já oitenta e cinco anos; e ainda hoje estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força então, tal é agora a minha força…”
Josué 14:11

Nesta semana encostou um pequeno caminhão à porta de casa, descarregando um piano. Um amigo generoso me vendeu por um preço quase simbólico. Minha mente viajou no tempo, galopando, sobre o meu coração.
Fui à vila simples onde vivi boa parte da infância e da adolescência. Relembrei o início da paixão pela música, as primeiras notas ao violão, as primeiras aulas de piano e os exercícios práticos que eu fazia na casa de minha tia Valda.
Inviável.
“Sem piano em casa não dá”, foi o que me disseram.
Mais de trinta anos se passaram, e o piano finalmente chegou.
Eu e todos em casa estamos animados pra aprender. Precisamos de um professor.
No meu caso, não sei se vai dar.
A chegada do piano, no entanto, tem sido uma profunda lição de vida.
Sonhos são uma das poucas coisas na vida que não envelhecem!
Eles são gerados no mundo da imaginação.
São, portanto, parentes da poesia, parceiros da transcendência, amigos da eternidade.
Prometo a mim mesmo que vou me empenhar no aprendizado.
Mas já valeu o piano.
E sempre valerá o sonho.
piano

LANÇAMENTO DO LIVRO DE VENTO EM POPA

De vento em popa,compacto2
Meu novo livro, De Vento em Popa – Fé Cristã e Música Popular Brasileira, será lançado no próximo dia 19 de novembro, quinta-feira às 19:00 hs na Livraria Cultura do Shopping Market Place.
Ele conta a história do disco homônimo, que foi um divisor de águas em se tratando de música cristã brasileira, reflete sobre sua imensa contribuição, além de lançar um olhar para o futuro do diálogo entre fé cristã e cultura em nosso país.
Conto com a sua presença.

UM MUNDO MENOR

Ontem em Florianópolis, a caminho de casa, soube que o Rehder, Jorge como eu, parceiro de várias canções e um amigo de longa data, tomara também o caminho de casa, não a do sobrado singelo de Santo Amaro, que tantas vezes me recebeu pra um churrasco, risadas estrondosas, casos e piadas inesgotáveis, mas o do lar definitivo, habitação de gente com o tamanho e a grandeza de seu coração.
Na celebração de sua despedida, me convidaram pra cantar Ajuntamento.
Antes, eu disse umas poucas palavras, disse que na madrugada do domingo, o mundo no qual Jorge viveu, com sua partida, ficou menos generoso, menos engraçado, menos belo, menos compassivo. O céu, no entanto, ao mesmo tempo está agora mais generoso, mais engraçado, mais belo, mais compassivo. Tenho saudades do céu. Estou com saudades de você, Jorge.

É isso o que dá pra dizer.
Jorge Rehder e Marilda

OS INSTANTES DA ESTANTE

Minha primeira estante de partitura musical eu conheci na igreja quadrangular da Praça Olavo Bilac, ainda garoto.
Muitas outras vieram: a do professor de violão clássico, do Mozart Mello, meu mestre maior nas harmonias, da escola do Zimbo Trio, onde tomei contato com o mundo do contrabaixo, do Claudio Bertrami, um de nossos melhores baixistas e de quem tive a honra de ser aluno, do Paulinho Vieira, grande violinista e meu orientador de solfejos…
Outras tantas estiveram diante de mim em palcos e púlpitos diversos, Brasil e mundo afora.
Há também a velha estante de casa, testemunha de canções sem conta que sobre ela repousaram para que a minha imaginação pudesse correr e voar, e que hoje reparte seu espaço também com os livros que traduzo e cujo conteúdo eu ajudo a espalhar como sementes; que leio e que me leem.
Amparada sobre três pés, ela é, entre muitas coisas, símbolo do apoio e do amparo divinos e humanos que permitem que a vida encontre esteio, rumo e prumo, seja frutífera e fecunda e que possa deixar um legado de arte, espiritualidade e beleza pra quem vier depois.
estantepartitura123234535

UM SONHO DE IGREJA

Em 2001 passei aproximadamente um mês na África, especificamente em Angola, na cidade do Lubango.
À época o país ainda estava em guerra (que terminou em abril de 2002). A cidade, como o restante da nação, sofria as mais variadas consequências do conflito que se iniciara, primeiro em busca da independência de Portugal, mas que depois descambara num confronto fratricida.

Em meio a tantas dificuldades, observei que havia muitas igrejas de origem protestante na cidade representando várias denominações. Na comunidade onde o grupo que eu liderava trabalhou, muitas eram as atividades desenvolvidas em prol da comunidade como um todo. E em uma cidade sem qualquer tipo de opção de lazer e de cultura, a igreja se tornara um ponto de encontro, um pólo produtor de atividades culturais em suas mais variadas formas: música, dança, teatro, artesanato, etc. Um autêntico oásis num deserto de opções e de carências.

No meio daquele caos social, tive um vislumbre do que entendo ser a contribuição da igreja ao mundo.
Sonhei uma igreja. O que seria de nós sem a possibilidade de sonhar?

Vamos ao sonho:

Uma igreja cujo templo está localizado no centro da cidade, de fácil acesso e muita visibilidade.
Suas portas estão abertas diariamente (ao contrário de muitos edifícios religiosos que funcionam somente nos dias de culto e que no restante do tempo permanecem trancafiados). Além dos cursos profissionalizantes, do atendimento aos necessitados, das parcerias com a prefeitura, o estado, o governo federal e a iniciativa privada, a igreja também possui um intenso calendário cultural que, diferente de outras que utilizam somente as datas cristãs para promover seus musicais, abre o espaço de seu imenso palco a uma programação intensa que contempla todos os estilos de música. Às quintas, por exemplo, uma camerata se apresenta no templo com repertório barroco e entrada franca, de modo que os moradores da cidade que apreciam música erudita têm oportunidade de assistir um concerto gratuito, além de apreciar os vitrais da velha catedral protestante, tomar um delicioso café no salão, servido pelos membros da comunidade, que usam esse tempo como oportunidade para servir e estabelecer amizades. Sem proselitismo. Sem forçar a barra. Amizade genuína e desinteressada.
Às sextas a noite são de rock pesado. Os adolescentes e jovens da igreja, instruídos que são a cultivarem amizades fora dos muros de seu templo, veem na programação mensal que inclui o concerto de rock uma oportunidade de convidar seus amigos a conhecer o espaço e ouvir a música que ambos apreciam. E assim estarem mais perto. Curtirem a oportunidade de ser gente no meio de gente. Bem ao estilo de Jesus, que amava as festas e a possibilidade de estar cercado de gente.
No rodízio de programação incluem-se shows de MPB, música alternativa, música instrumental de estilos variados, palestras sobre música e cultura, musicoterapia, etc.
Algumas manhãs e tardes são reservadas às exposições: pintura, escultura, gravura, fotografia.
Há também as mini-temporadas teatrais.
Os saraus, com leitura de poemas.
Os lançamentos de livros.
Quantas opções de difusão de arte e cultura forem concebidas e viabilizadas.
No espaço singelo de um templo.
No espaço do coração e da mente arejada de uma comunidade que existe para servir o mundo e contagiá-lo com boas obras, serviço abnegado e amor sem limites.
Estou perto de despertar de meu sonho quando alguém toca em meu ombro e diz, “quero agradecer ao pastor da igreja por abrir as portas do templo e do coração para me receber. Não imaginei que esse espaço pudesse servir a tantas possibilidades. Qual é mesmo o horário dos cultos aqui?”

Acordo acreditando que a igreja ainda possa ser lugar de encontro, de acolhimento, de sorriso, de mentes e corações desarmados.
Mas tudo isso ainda é apenas um sonho.

A DIFÍCIL ARTE DE SER MULHER

agora-poster-2-343x490Hours concours em Cannes, um dos filmes de maior sucesso no badalado festival francês foi “Ágora”, direção de Alejandro Amenabar.

A estrela é a inglesa Rachel Weiz, premiada com o Oscar 2006 de melhor atriz coadjuvante em “O jardineiro fiel”, dirigido por Fernando Meirelles. Em “Ágora” ela interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a se destacar como cientista. Astrônoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu, desenvolveu um mapa de corpos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrômetro.

Neoplatônica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cristãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquistar a hegemonia cultural.

Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma.

O filme de Amenabar é pertinente nesse momento em que o fanatismo religioso se revigora mundo afora. Contudo, toca também outro tema mais profundo: a pressão contra a mulher. Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a convencer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação feminina.

Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. Sua autoestima é deslocada para o sentir-se desejada; seu corpo é violentamente modelado segundo padrões consumistas de beleza; seus atributos físicos se tornam onipresentes.

Onde há oferta de produtos – TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o merchandising embutido em telenovelas – o que se vê é uma profusão de seios, nádegas, lábios, coxas etc. É o açougue virtual. Hipácia é castrada em sua inteligência, em seus talentos e valores subjetivos, e agora dilacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição. Segundo a ironia da Ciranda da bailarina, de Edu Lobo e Chico Buarque, “Procurando bem / todo mundo tem pereba / marca de bexiga ou vacina / e tem piriri, tem lombriga, tem ameba / só a bailarina que não tem”. Se tiver, será execrada pelos padrões machistas por ser gorda, velha, sem atributos físicos que a tornem desejável.

Se abre a boca, deve falar de emoções, nunca de valores; de fantasias, e não de realidade; da vida privada e não da pública (política). E aceitar ser lisonjeiramente reduzida à irracionalidade analógica: “gata”, “vaca”, “avião”, “melancia” etc. Para evitar ser execrada, agora Hipácia deve controlar o peso à custa de enormes sacrifícios (quem dera destinasse aos famintos o que deixa de ingerir…), mudar o vestuário o mais frequentemente possível, submeter-se à cirurgia plástica por mera questão de vaidade (e pensar que este ramo da medicina foi criado para corrigir anomalias físicas e não para dedicar-se a caprichos estéticos).

Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada. Mas o amor é um valor anticapitalista. Supõe solidariedade e não  competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não possessão. E o machismo impregnado nessa cultura voltada ao consumismo teme a alteridade feminina. Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo).

Na guerra dos sexos, historicamente é o homem quem dita o lugar da mulher… Ele tem a posse dos bens (patrimônio); a ela cabe o cuidado da casa (matrimônio). E, é claro, ela é incluída entre os bens… Vide o tradicional costume de, no casamento, incluir o sobrenome do marido ao nome da mulher.

No Brasil colonial, dizia-se que à mulher do senhor de escravos era permitido sair de casa apenas três vezes: para ser batizada, casada e
enterrada… Ainda hoje, a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não querem compartir, e sim dominar. Eles são repletos de vontades e parcos de inteligência, ainda que cultos. Se o atrativo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média atual de durabilidade conjugal no Brasil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que carecem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade?

Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjetividade.

Frei Betto *
*Escritor e assessor de movimentos sociais.



Lançamentos

somosum.gifDe Vento em Popa - Fé Cristã e Música Popular Brasileira - Adquira o novo livro de Jorge Camargo, De Vento em Popa - Fé Cristã e Música Popular Brasileira através do site da Editora Reflexão.

-

somosum.gifO Melhor de Mim (álbum duplo) - Esta coletânea é resultado da parceria com a EcoTVBrasil. "O melhor de Mim", é o retrato de uma trajetória de mais de duas décadas dedicadas à produção e veiculação de música cristã brasileira.

-

somosum.gifSomos Um - Uma combinação de fragmentos biográficos, reminiscências, poesia e música, tudo ocupando um mesmo espaço e falando uma mesma língua. Juntamente com o livro, você adquire também um CD com essas mesmas canções, compostas especialmente para o projeto. Para ler e ouvir. Refletir e crescer.

Convites

Para ter Jorge Camargo em sua cidade é simples: envie um e-mail para contato@jorgecamargo.com.br e solicite as informações de que necessita.


Workshop

somosum.gif

Há vários anos Jorge tem ministrado o curso "Faça Suas Próprias Canções" em todo o Brasil e em outras partes do mundo. Trata-se de um módulo de 4 horas que aborda os temas "A importância da Poesia", "Técnicas para a elaboração de textos poéticos" (letras de música), e "Aula Prática"

Clique aqui para mais informações ou para entrar em contato.