O Salmo 84 é um de meus textos preferidos da Escritura. De sua leitura constante até a canção foi um salto.
O ano em que escrevi essa melodia, coincidentemente, foi o de 1984.
Lembro-me vividamente de estar sentado sobre o tapete da sala que também havia sido meu quarto por muitos anos. À medida que a melodia se encaixava na harmonia simples, a emoção aumentava, e lágrimas corriam por sobre a minha face.
A batida que eu utilizava me fazia lembrar “Meu Bem Querer” do Djavan, que fazia muito sucesso na época, inspiração que eu a principio rejeitei. (Bobagens estéticas e religiosas - a música do Djavan é tão linda e inspiradora quanto o Salmo).
Meus pais, de origem humilde, abrigaram minha avó materna, dona Olga, uma mulher de olhos claros, azuis como o mar de Maceió, de gênio forte, marcada pela dor e pela luta, filha de italianos, ex-funcionária de fábrica no tradicional bairro do Brás em São Paulo, por muito tempo reduto da comunidade italiana da cidade, e que até os 35 anos havia tido 10 filhos e perdido oito deles antes dos dois anos de idade.
Como morávamos os quatro em uma casa de apenas um quarto, minha avó e eu repartíamos a sala.
Ela em sua cama, eu no sofá.
Foi assim até sua morte em 1980, quando eu tinha 17 anos. A partir de então, ganhei meu quarto-sala, espaço onde nasceram minhas primeiras canções, e a adaptação desse Salmo. A linguagem piedosa do texto, “o meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo”, “mais vale um dia nos teus átrios do que mil nas tendas da perversidade”, “porque o Senhor Deus é sol e escudo, o Senhor dá graça e glória, nenhum bem sonega aos que andam retamente”, cativou meu coração.
Durante muito tempo quis ser como o salmista, como se isso fosse possível.
Eu ainda não havia lido “…o qual passando pelo vale árido…”.
Hoje esta é a parte do Salmo que mais aprecio. Ela faz com que eu me sinta mais conectado com o personagem, e com o texto como um todo.
No ano seguinte (1985), passei a conviver regularmente com o Guilherme (Kerr), que escreveu a adaptação da terceira estrofe (Pois o Senhor é sol e escudo). O resto, é história.
Talvez seja minha canção mais conhecida Brasil afora, e uma de minhas preferidas.