Definitivo

Por ocasião dos 30 anos de carreira, comemorados em 2011, entrei em estúdio para produzir, com Maurício Caruso e Daniel Maia, o CD Jorge Camargo, Definitivo.

Trata-se de uma releitura de minhas principais canções, com a participação de músicos e intérpretes de trinta e poucos anos, que começam a despontar e a consolidar as suas carreiras.

A ideia do projeto foi registrar o mais importante da minha trajetória, como que a transferindo para as novas gerações que chegam, por intermédio das vozes e do talento de jovens que estavam nascendo quando tudo começou.

Por isso, convidei Tiago Vianna, Ju Bragança, Carol Gualberto, Banda de Boca (Hiran, Arno Júnior, Poliana, Fábio e Neto), Jader Gudin, Aline Pignaton e Diego Venancio, gente que carrega o futuro nas pontas dos dedos e na voz. E recebi ainda a colaboração de músicos maravilhosos –  Maurício Caruso, Daniel Maia, Misael Barros, Cezar Elbert, a Camerata Marcato (capitaneada pelo Paulo Vieira), Gilson Oliveira, Flávio Régis, Ronaldo (Cordas) Oliveira e Jota Erre.

O repertório, selecionado com a colaboração de admiradores de todo o Brasil, traz canções antigas mas também as inéditas FarolLetra Morta e Pastores de Palavras.

Uma vez mais, um projeto (e um sonho) se realiza graças ao apoio, provimento e amizade de algumas pessoas especiais, a quem expresso meu agradecimento.

O estúdio do Maurício Caruso (o Quarto da Bagunça) recebeu os instrumentos afinados e o coração aquecido por emoções e memórias. Minha gratidão a todos que acompanharam o trabalho e viveram comigo essa realização.

Finalmente, está pronta a coletânea que, para mim, representa a minha obra. O título que dá nome ao projeto quer dizer que esta obra está registrada em versão definitiva – significa que não vou gravar essas canções novamente. Entendo que, juntas, essas músicas compõem como que um legado, que repasso a quem está chegando.

Se tanto não forem tão especiais para todos quanto são para mim, sei que o são para alguns. A todos, entretanto e indistintamente, estendo meu reconhecimento por terem dado a esse repertório o que mais sonha um artista – vida.

Tenho consciência de que essas canções estão vivas e espalhadas por aí e isso para mim representa uma enorme responsabilidade e uma grande alegria. Vez por outra eu as encontro, em minhas idas e vindas. Outro dia mesmo ouvi uma versão de Bendize com o Charles e o Ivan Melo (veja aqui). Ficou linda! Simples assim.

Entendo que essas canções são, como às vezes comento, como filhas – nasceram, cresceram e saíram de casa. Chegaram a lugares distantes, nos quais eu mesmo nunca fui. Quando apareço, tempos depois, elas estão lá. Construíram amizades, tomaram espaços, ganharam confiança. E eu, o pai, recebo isso tudo por extensão. Sou recebido como se de casa fosse!

Então, é isso…

“É pronta a minha obra.

[…]

Já é hora, vai pra rua, minha obra.

Segue a estrada, roda a saia,

abraça o sol, tira a sandália.

Vai pro baile, toda prosa,

enfeitada e bem formosa.

Vai. Vai embora, obra minha.

Vive a vida em outras vestes,

grita a força em outras vozes

e ora dessas, vez em quando,

me convida pra cantar”…

Sobre o repertório, gosto dele também por sabê-lo não circunscrito a uma tradição religiosa denominacional específica. Eu não tinha percebido. Mas descobri isso e me emocionei. Parece pouco e simples. Não é.

 

A seleção de músicas inclui:

– a herança hebraica mais remota – a saga de Abraão/Javé Jirê, na  canção Farol;

–  a riqueza sapiencial e literária dos Salmos (em Meu Baluarte, em Melhor que a Vida , em Bendize e em Teus Altares;

– a literatura profética (em Mar do Esquecimento e Letra Morta;

– a mensagem do cristianismo primitivo (em Ajuntamento, Bondade Muitos Virão te Louvar);

– a fé dos reformadores (em Respostas),

– a força dos movimentos avivalistas e pietistas (em Amolece o meu Coração e em Adorador;

– as nuances do metodismo (em Viva Chama e em Maravilhoso Amor e

– o diálogo contemporâneo entre espiritualidade e literatura (em Pastores de Palavras).

Tudo isso ao som de samba-canção, toada, balada mineira, valsa, bolero, ijexá.

Há um ano, me propus a fazer um CD simples, apenas para registrar algumas das minhas canções preferidas. E era mesmo para ser um simples CD. Para mim, hoje, é muito mais. Fui, nas palavras de C. S. Lewis, surpreendido pela alegria!

E, por fim, mas não por último, quero dizer bem claramente que a arte é do Daniel Brito. Que tem feito coisas lindas. Essa foi só mais uma.

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Fotos do projeto (imagens de Ana Paula Spolon):