A reforma protestante representou uma ruptura com o mundo medieval. Desde a revolta de Wycliff contra Roma na Inglaterra, passando por Lutero na Alemanha, Calvino e tantos outros que os seguiram, a liberdade passou a ser o lema. Liberdade para ler as Escrituras, para cultuar a Deus, para ser uma comunidade religiosa não vinculada ao Estado, enfim, todas as conquistas que vários registros na História têm destacado nos anos que se seguiram a esse movimento tão importante.

Ocorre que a liberdade tem um preço, e um preço muito alto. É só olharmos a realidade religiosa do contexto protestante ao nosso redor. Todos os dias nasce uma nova comunidade, com teologia e prática próprias, apregoando conceitos que seus líderes entendem que sejam inspirados pelos valores expressos no texto sagrado, ou por valores muitas vezes inspirados por outros textos (ou intentos) questionáveis. De novo, este é o preço da liberdade.

MÚSICA CRISTÃ CONTEMPORÂNEA

A reforma protestante representou uma ruptura com o mundo medieval. Desde a revolta de Wycliff contra Roma na Inglaterra, passando por Lutero na Alemanha, Calvino e tantos outros que os seguiram, a liberdade passou a ser o lema. Liberdade para ler as Escrituras, para cultuar a Deus, para ser uma comunidade religiosa não vinculada ao Estado, enfim, todas as conquistas que vários registros na História têm destacado nos anos que se seguiram a esse movimento tão importante.

Ocorre que a liberdade tem um preço, e um preço muito alto. É só olharmos a realidade religiosa do contexto protestante ao nosso redor. Todos os dias nasce uma nova comunidade, com teologia e prática próprias, apregoando conceitos que seus líderes entendem que sejam inspirados pelos valores expressos no texto sagrado, ou por valores muitas vezes inspirados por outros textos (ou intentos) questionáveis. De novo, este é o preço da liberdade.

Muitos, bem intencionados, têm tentado “pôr ordem na casa”, propondo uma mobilização em prol de uma liga aglutinadora de pessoas e valores reformados, que possam dar rumo e ser prumo para uma comunidade tão desintegrada e desconectada.

Ledo engano. O “bicho” da liberdade escapou por entre os dedos, saltou na mata e não há santo (no sentido genérico da palavra) que consiga capturá-lo, a fim de trazê-lo de volta à sua redoma… que cara é essa tal liberdade!

Há anos trabalhando com música entre as comunidades cristãs, observo que o fenômeno desta liberdade tem se manifestado também nas artes, com toda a intensidade e todas as implicações dela decorrentes. No início desta minha caminhada eram poucos os grupos, raras as produções, difícil o acesso a material importado por exemplo.

Hoje as coisas estão bem diferentes. Por conta, em parte, da abertura econômica dos anos 90, temos nas prateleiras das livrarias todo o tipo de música religiosa internacional à disposição, sem falar na nacional, há algum tempo rotulada de “gospel”.

Permita-me você, leitor, que está dispondo deste seu tempo tão precioso a fim de ler este texto e, quem sabe, saber onde acaba esta história sobre a liberdade, a mesma liberdade de dizer que discordo deste rótulo para a música que eu e outros temos produzido e veiculado nos últimos 20 e tantos anos.

Em nome da herança dos reformadores, em nome de mais de 2.000 anos de história cristã, em nome do bom senso, em nome de minhas convicções pessoais e da paixão com que escrevo as canções para e acerca de Deus, de meus conflitos, minha fé, minhas esperanças, como vejo o mundo e a vida, como interpreto o coração humano a partir do meu próprio coração, permitam-me, em nome dessa liberdade, chamar minha música simplesmente de cristã.

Sem querer que este nome se torne outro rótulo. Sem precisar de estratégia de marketing a fim de que esta música esteja nas melhores lojas do ramo. Sem expectativas de ser um sucesso. Com desejo, sim, de que outros ouçam, mas não a qualquer preço. Muito menos ao preço dessa liberdade tão preciosa de dizer o que está no coração, e não aquilo que as pesquisas me dizem que os outros querem ouvir.
Isso não é liberdade, e sim prisão.

E o preço da prisão, comparado ao enorme preço da liberdade é, ainda assim, infinitamente mais alto.

(Escrito em 2003)


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